Dízimo Bíblico - Origem e propósito



            O dízimo, como verdade bíblica, por mais que pareça hoje um tema comum (debate-se acerca de seu uso e da forma como é solicitado pelas diversas denominações), já foi alvo de esquecimento e, ainda hoje, é objeto de distorções quanto à sua validade, finalidade e aplicação.

Não podemos esquecer que: “Deus não tem mudado; o dízimo ainda deve ser usado para o sustento do ministério. O começo da Obra em vários campos requer mais eficácia ministerial do que a que temos agora, e tem que haver fundos na tesouraria”.

Lamentavelmente, como todas as doutrinas da Escritura, o dízimo também está sendo atacado, mesmo no seio da igreja, sendo tais ataques ajuntados a uma velada ou explícita resistência à organização devido a eventuais erros que possam estar sendo cometidos em seu seio ou mesmo por injustificada suspeita de as coisas não estarem sendo bem dirigidas. Questionam-se os motivos dos que pedem para a obra e muitas vezes alimentam-se sentimentos de que se está sendo enganado ou defraudado, como resultado perde-se a noção de uma sagrada reserva, e é prejudicado o avanço da obra que deve ir até os confins da Terra.

Pretende-se apenas revisar, aqui, sucintamente, os ensinos bíblicos. Neste estudo será abordado, também, o assunto das ofertas, uma vez que está ligado ao tema principal deste estudo (Ml 3:8).

O Antigo Testamento faz referência ao dízimo 35 vezes e o Novo Testamento dez vezes. Tais passagens serão citadas e examinadas mais à frente.

Vale a pena lembrar a advertência aos pastores e à igreja:
Alguns deixam de educar o povo a cumprir com todo o seu dever. Pregam parte de nossa fé que não cria oposição ou desagrada aos ouvintes, mas não declaram toda a verdade. O povo aprecia-lhes a pregação, mas há falta de espiritualidade porque os reclamos do Senhor não são atendidos. Seu povo não lhe dá em dízimos e ofertas o que lhe pertence. Esse roubo a Deus, praticado tanto pelos ricos como pelos pobres, traz trevas às igrejas; e o ministro que com elas trabalha, e não lhes mostra a vontade de Deus claramente revelada, é condenado com o povo, por negligenciar seu dever.

Tal declaração, a meu ver, é um motivo bastante significativo, além dos textos bíblicos, para um contínuo esforço denominacional, que inclua maior compreensão, melhor emprego e, finalmente, mais fidelidade nesta área.

A Teologia do Dízimo nas Escrituras

Reconhecendo a autoridade do dízimo em relação a lei mosaica (Gn 14:20; 28:22; Hb 7:5-10), pode ser entendido que o sistema é independente do sacerdócio levítico, reconhecido e praticado mesmo por Abraão, o maior dos patriarcas, o pai da fé. Aliás, fé é o elemento chave, para a fidelidade a Deus, especialmente neste assunto. A fidelidade requer confiança total na promessa de Deus (Ml 3:10-13).

Foi somente após a saída dos israelitas do Egito que o dízimo foi regulamentado para o sistema levítico. Ele era dado ao levita, devido a não ter “herança na terra”, isto é, ele vivia exclusivamente para o serviço religioso e isso lhe dava direito a todos os dízimos (Lv 27:30-34).

Como oferta para o ministério o dízimo pertence realmente a Deus, não deve ser trocado sob pena de multa de um quinto, ou seja, vinte por cento, e em se tratando de dízimos de animais a sua troca implicara na perda do trocado, isto é, multa de cem por cento, para quem tentasse obter lucro trocando um dízimo gordo por uma substituição mais magra. A lei fazia clara proibição, que desestimulava as artimanhas do coração egoísta enfatizando: “não esquadrinharás entre o bom e o ruim.” Sua entrega deveria ser feita somente aos levitas, que atuavam como sacerdotes e, que dariam à família de Arão, o dízimo dos dízimos (Nm 18:20-26; Ne 10:37-38; 12:44; 13:5-12).

Sendo anterior a Moisés e proclamando o princípio de que Deus é o verdadeiro dono de tudo, exercendo um convite a liberdade e denunciando o coração egoísta e avarento, nutrindo a obra de Deus com dádivas altruístas de um coração convertido e liberal.

O Dízimo no Antigo Testamento

Antes que teçamos maiores comentários, o esboço a seguir ajudará a compreender as rendas do Templo e suas finalidades:

1) Para os sacerdotes (levitas da família de Arão), conforme Números 18:9-26 e Levítico 5:15-7:35 destacamos:

a) Todas as ofertas que não eram queimadas.
b) Toda coisa consagrada a Deus por voto.
c) Todas as primícias.
d) Todos os primogênitos dos animais.
e) O dízimo dos dízimos dado pelos levitas.

2) Para os levitas (Nm 18:21-32) – Os dízimos de tudo em Israel.

3) Para os pobres destinava-se um segundo dízimo. Dt 12, 14, 26. Havia também outras provisões mosaicas destinadas a proteger os desafortunados como a respiga e o ano sabático (Dt 24:19-10; 25:9-10), mas este não é o assunto do estudo.

4) Para a construção, reforma e manutenção do Templo.
a) O imposto anual.
b) O dinheiro do resgate das pessoas.
c) Coleta feita pelos sacerdotes.
d) Ofertas voluntárias trazidas ao Templo.

Mesmo respeitando os limites deste trabalho, nos perguntamos como foram administrados os dízimos e ofertas em Israel?

Os exemplos seguintes nos ajudarão a compreender alguns aspectos da questão:

Sob Joás. A reforma de Joás, (cerca de 835 a 796 a.C.) foi uma reforma do Templo e dos seus serviços. Essa empreitada de arrecadação de fundos, para usar uma linguagem bem atual, foi encomendada pelo rei aos sacerdotes. Estes deveriam sair pelas cidades de Judá e levantar dinheiro de todo Israel com o objetivo de reparar “a casa do vosso Deus de ano em ano” (2Cr 24:1-14). Também cobrou ação dos levitas quanto ao “imposto de Moisés” que havia sido instituído para esse fim (v.6). Após haverem conclamado a nação, os levitas receberam esse dinheiro dos israelitas até que a obra foi concluída (vv. 9-10). Esse imposto anual, foi estabelecido no deserto com o objetivo específico de manter e reformar o Templo e correspondia a metade de um siclo “segundo o siclo do santuário” (Êx 30:11-16).

O dicionário diz que o siclo era uma moeda dos judeus, de prata pura e que pesava seis gramas. O shekel ou siclo, era uma moeda de prata pura (meio siclo) que cada um pagava para os gastos de “reparação do Templo e para os sacrifícios, para o perdão do povo. O prazo do pagamento era do dia primeiro ao dia quinze do mês de Adar. Este costume continua até nossos dias,...”

Todo judeu adulto era obrigado a recolher anualmente este imposto e, especificamente nesta época de Joás, estava sendo depositado numa arca de ofertas, no Templo (2Cr 24:8).

Além do imposto do Templo, Joás usou para as despesas da reforma o dinheiro do resgate das pessoas (Lv 27:1-15), as ofertas voluntárias (2Rs 12:4). E a arrecadação feita pelos sacerdotes (2Rs 12:5). Os dízimos continuavam exclusivos para o sacerdócio.

Sob Ezequias. Mentor de uma reforma espiritual que chamava todo o povo para um reavivamento, o rei Ezequias (729 a 686 a.C.) tomou medidas financeiras para restaurar à atividade o Santuário (2Cr 31:2-21). O rei custearia as cerimônias diárias da manhã e da tarde, dos sábados, luas novas e festas fixas, conforme a lei do Senhor (v. 3 e Nm 28:1-29). O povo contribuiria com a parte devida aos sacerdotes e levitas, que eram os dízimos e as ofertas (v. 4-6 e Nm 18) e o fez com tal abundância que foi necessário preparar novos depósitos (v.11), e ali recolher fielmente as ofertas, os dízimos e as coisas consagradas (v. 12).

Havia dois grupos encarregados de administrar as entradas, em separado:

(1) Um intendente e sua equipe para os dízimos e porções dos sacerdotes nominalmente. Recebiam o pagamento apenas os que estavam oficialmente registrados como ministros de Deus (vv. 17-19). Eles não recebiam os dízimos diretamente dos adoradores, mas da tesouraria centralizada que coordenava toda a distribuição das porções dos dízimos e rendas dos que, não tendo outra atividade, viviam somente para o serviço religioso da obra do Senhor (vv. 14, 15 e 19). As porções eram para todos os levitas, sem discriminação.

(2) Outro intendente levita, Coré, e a sua equipe controlava as ofertas e sua distribuição aos que serviam no Templo em seus turnos (vv. 14-16).

A reforma de Ezequias obedeceu às diretrizes que se encontravam nas leis e mandamentos de Deus (v.21). Não eram idéias de organização originais do rei, mas um retorno ao modelo divino abandonado durante a apostasia. Deus as aprovou e abençoou, uma vez que foram declaradas boas, retas e verdadeiras (vv. 20 e 21). Os dízimos continuavam exclusivos para o sacerdócio.
Sob Josias. A reforma posterior, do rei Josias (640 a 609 a.C.), seguiu o mesmo padrão de Joás e Ezequias. As ofertas voluntárias e o imposto do Templo continuavam ainda a serem depositadas na caixa à porta do Santuário (2Rs 22:1-7; 2Cr 24:8-10; 31:14).

Sob Neemias. Depois de recolhidos, em produtos diversos, os dízimos e as ofertas, eram levados a depósitos próprios para cada dádiva, como menciona Neemias (12:44). Esse procedimento chama a atenção, uma vez que tratava-se de uma reforma espiritual que ocorria após o retorno do cativeiro (ca. 444 a.C.). Tal reforma foi seguida de um apelo à devolução das porções prescritas na lei e envolviam ofertas, primícias, dízimos e outras de acordo com a Torah. Tendo determinado depósitos específicos para cada oferta, afim de não misturar entradas que tinham finalidades diferentes, Neemias também elegeu tesoureiros, centralizou a entrega dos recursos no Santuário de onde se distribuíam as porções aos levitas e sacerdotes, cada um em sua função. É sintomática a preferência por um centro recebedor e uma fiel equipe de sacerdotes que fizesse a distribuição “a seus irmãos” ficando uma equipe em Jerusalém para os sacerdotes e outras nas cidades dos levitas (Ne 12:44-47; 13:10-13).

O ministério de Malaquias. Em Malaquias 3:8-10 ( 400 a.C.), o profeta refere-se a essa Casa do Tesouro do Templo, com a sua administração e organização, na qual os dízimos não eram misturados com as ofertas e coisas consagradas, mas tinham seu controle por um corpo de levitas nomeado especialmente para receber e dar as porções aos sacerdotes. A ênfase de Malaquias é a falta de bênçãos em virtude de não devolverem os dízimos fielmente, pois deveriam trazê-lo a Jerusalém sob a supervisão dos sacerdotes e manter a porção dos levitas em suas cidades para que os tesoureiros, também levitas, fizessem a distribuição conforme fosse necessário.

Neemias representa a mais antiga tradição acerca do uso do dízimo e deriva de Deuteronômio e Números.

Não podemos esclarecer, evidentemente, todos os detalhes referentes ao uso do dízimo levítico em Israel, mas podemos, com razoável segurança entender que esse dízimo era a décima parte das rendas do adorador, obrigatória, que não podia ser trocada ou resgatada, no todo ou em parte, era consagrada ao ministério, não podendo ser utilizada para nenhuma outra finalidade ou serviço, mesmo do Santuário, e que sua administração não era feita pelos sacerdotes individualmente e nem pelo adorador, mas por uma equipe designada dentre os próprios levitas; além do mais, é dito pertencer a Deus e por isso deve ser devolvida (Lv 27; Ml 3:8-10). Por outro lado, quanto às ofertas, elas pertencem ao homem (Dt 16:10), o critério de quanto dar é do homem (Dt 16:17), podem ser usadas para várias finalidades (Êx 30:12, 13; 2Cr 31:14; 24:6, 9; Ne 10:32), por isso damos. Foi a liberalidade e obediência dos israelitas ao princípio desses usos adequados nas diversas ofertas que possibilitou toda a construção, manutenção e reformas do Templo em várias épocas sem lançar mãos do dízimo, conforme Deus prescrevera.




O Dízimo no Novo Testamento

A palavra dízimo não é usada de forma direta nas instruções à igreja sobre o assunto, no entanto é bom lembrar que a omissão não invalida a doutrina e nem o Novo Testamento se destinava a ser o instrumento único que vai estabelecer as doutrinas válidas da igreja. Uma doutrina não precisa ser repetida nos escritos neotestamentários para ser validada. Aliás, o Antigo Testamento eram as Escrituras usadas pelos apóstolos e na qual respaldavam seus ensinos. Encontramos, porém, no Novo Testamento, o ensino do dízimo abordado de outra forma, nos argumentos em favor de uma visão mais exaltada do ministério cristão e seu direito à justa remuneração. Como o dízimo subsistia, anteriormente, sem a lei levítica, como já foi visto, persevera após ela.

Na epístola aos Hebreus, capítulo sete, menciona-se a exclusividade dos levítas para recolher o dízimo dentro do sistema Mosáico. O autor de Hebreus aproveita a oportunidade para chamar a atenção de que em Abraão (antepassado dos levítas) Levi, havia dado os dízimos para um sacerdócio superior, instituído por Deus. Mequizedeque é representante do sacerdócio de Cristo, superior ao aarônico e levita. Aqui, mais uma vez, o dízimo é mencionado em sua anterioridade ao sistema levítico e é declarada a sua natureza sagrada e exclusiva para o ministério, servindo inclusive, para identificar a importância do ministério não levítico de Mequizedeque, pois que esse recebeu dízimos do próprio Abraão. Embora não seja o propósito direto da passagem em questão, somos levados a pensar, se, os dízimos dados a Mequizedeque, não apontam para o princípio da manutenção sacerdotal que passa por Moisés, chega ao NT e permanece até os dias atuais, lembrando que o atual ministério é uma extensão, na Terra, daquele que está sendo desenvolvido pelo Salvador no Santuário do Céu. Não é o ministério da igreja, por meio dos que “vivem do evangelho”, uma extensão do ministério salvador de Cristo?

O fariseu, estrito cumpridor da Lei, não esquecia de devolver seu dízimo fiel, mesmo que fosse “do endro e do cominho” (Lc 18:12). Embora sua negligência da justiça, misericórdia e fé merecesse a reprovação de Jesus, o Salvador não deixou passar a oportunidade para reiterar o princípio da fidelidade nos dízimos: “fazei estas coisas sem omitir aquelas”. Ou seja, “não use o dízimo para negligenciar a misericórdia, não use a misericórdia para negligenciar o dízimo” (Lc 11:42; Mt 23:23).
Interessante notar que, os fariseus acusavam Jesus de muitas coisas, porém jamais de não ser dizimista ou pregar contra esse sistema. Esse aspecto se torna mais relevante quando é lembrado que o Salvador condenava a avareza dos fariseus (Mt 23:14, 16, 17; Lc 16:14), descritos nos Evangelhos como uma elite cultural e religiosa da época (Mt 23:2). Além disso, suas disputas pelos cargos sacerdotais e as corrupções decorrentes não foram suficientes para impedir de Jesus de fazer o apelo pela lealdade do dízimo: “fazei estas coisas”.

A defesa de Paulo para a remuneração dos ministros do evangelho, tem sua base argumentativa nos textos do AT que se referem às entradas que mantinham os sacerdotes (1Co 9:6-14). Segundo ele:
1) Havia apóstolos que não trabalhavam secularmente (v. 6).
2) Pagar ministros era uma prescrição da lei (v. 8 e 9), e esta o fazia pelo sistema de dízimos (Nm 18).
3) O verso 13, diga-se, é uma referência direta do dízimo. Pois baseia seu apelo para o pagamento de ministros da igreja no direito dos sacerdotes e levitas que tinham seu sustento garantido pelo dízimo, a principal de suas entradas. Afinal não eram os sacerdotes e levitas os únicos que se podiam achegar ao altar e prestar o serviço sagrado no Templo (Nm 18:20-26)?
4) Essa parte, devida aos sacerdotes, é um direito do qual já estavam fazendo uso (vv. 10 e 12).
5) O mesmo sistema deve ser usado para os ministros do evangelho (v. 14).
6) Um direito do qual Paulo abriu mão (1 Co 9:12, 15), entre os coríntios (2Co 11:7), mas por causa da contestação do seu apostolado (2Co 11:5, 6) e para não dar ocasião aos falsos apóstolos (2Co 11:8 a 13), no entanto usou desse direito aceitando salário de outras igrejas (2Co 11:8).
7) Esse é um direito tão natural, segundo o apóstolo, como de alguém que planta uma vinha (1Co 9:7; Dt 20:6) e dela cuida (Pv 27:18).
Além disso, pagar os pastores é justo, especialmente aos que servem na pregação e no ensino (1Tm 5:17-18). Deve ser feito de tal maneira que não desperte ganância (1Pe 5:2). Afinal, o objetivo é que o pastor, pago pela igreja, não se embarace com as coisas desta vida e assim, sirva bem à causa de Deus (2Tm 2:4).

Vê-se pois, que, mesmo antes de Moisés, o sistema de manutenção dos ministros de Deus era basicamente pelo dízimo; assim foi durante a teocracia em Israel para a manutenção dos levitas e sacerdotes do Templo de Jerusalém; foi sancionado por Jesus; a manutenção dos ministros do evangelho foi defendida por Paulo usando a linguagem e as idéias do sacerdócio levítico do AT.

Em 1 Cor. 16:1 - 4. Paulo aparece como um mestre e pioneiro na missão de instruir os crentes quanto ao uso dos seus haveres. O que mais ressalta do ensino do nosso senhor, transmitido por meio do apóstolo, é que para o crente o seu contributo é, muito além de um dever, um grato privilégio. O Senhor Jesus disse e Paulo o lembrou, que mais bem-aventurada coisa é dar do que receber" - At. 20:35.
A COLETA
"Ora, quanto à coleta que se faz..."
Paulo não usou meias palavras, como quem fala de alguma coisa proibida. Antes, tratou as coisas pelos seus próprios nomes. Os crentes apreciam a linguagem clara. Linguagem capaz de lhes explicar que coleta é dinheiro, e que sem dinheiro a obra de Deus é materialmente impossível. É que a mão que o dá deve ser movida por um coração cheio de gratidão e amor.
"Para os santos". Este é o homem que disse, bem perto do fim da sua carreira: "De ninguém cobicei a prata, nem o ouro, nem vestido" - Act. 20:33. Para si, propriamente, Paulo nunca pediu. Mas em se tratando de necessidades, de crentes ou da Obra, do mesmo modo como ensinava acerca do privilégio de dar também sabia indicar o tempo em que isso devia ser praticado. Ao crente no Senhor Jesus, obreiro ou não, incumbe dar conhecimento de situações de carência que existam. Quanto às que lhe digam diretamente respeito, espere que outros falem delas. Paulo não ocultou as necessidades dos outros.
"Para os santos". Os crentes coríntios estavam sendo exortados a darem do seu dinheiro, e esse dinheiro tinha um destino identificado: os santos em Jerusalém. É uma alegria sermos convidados pelo Senhor a fazer uso daquilo que Ele nos tem dado para fins claramente reconhecidos e justificados. Quem informa, assume uma enorme responsabilidade, tanto para com os crentes como em relação a Deus. Se uma entrega de quaisquer meios é feita às cegas, corre-se o risco de isso ter um destino errado e injusto e de se deixar em falta necessidades que são reais. Cuidado, porque isso é um pecado e uma perda!
"Fazei vós o mesmo que ordenei..." O apóstolo não se pôs de joelhos nem pediu. "Ordenei" - diz ele. Mais importante que a sua autoridade, era a razão que lhe assistia. Em Jerusalém, havia crentes ameaçados pela fome. Não podiam contar com os seus bens, porque os repartiram, enquanto os tiveram - - At. 2:44-45; 4:32, 34-37. Agora, os crentes em Corinto possuíam muito mais do que eles. Esta a razão pela qual Paulo lhes ordenou a partilha do que eles tinham com os que precisavam. E um pecado - grande pecado mesmo, ter conhecimento de uma necessidade autêntica, talvez aflitiva, e não lhe acudir, quando se tem possibilidade o fazer. "Se o irmão ou irmã estiverem nus e tiverem falta mantimento quotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide e paz, aquentai-vos e fartai-vos; e lhes não derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí?" - Tiago 2:15-16.
UM ENSINO UNIFORME
"Às Igrejas na Galácia". Um ensino uniforme relativo à contribuição, foi levado às igrejas em quatro regiões, pelo menos: Antioquia, Macedónia, Acaia e Galácia - At. 11:2 30; Rom. 15:26; l Cor. 16:1. Acontecem, não poucas vezes que em uma mesma terra as pessoas de dois lugares vizinhos diferem surpreendentemente nas suas maneiras de pensar e agir. Tomando isto por referência, é fácil calcular que diferentes seriam estes crentes uns dos outros. Paulo não desconhecia essa realidade no seu campo missionário. E que fez ele? Ministrou ensinos diferentes, porque as passo eram diferentes? - De modo nenhum. Todos os crentes e igrejas em todos os lugares foram instruídos da mesma maneira porque outra não era, nem é, a vontade de Deus. E o ensino uniforme uniformizou todas aquelas Igrejas no pensamento, no sentimento e na ação. O Espírito do Senhor atuou com tanta graça nas mentes e nos corações daqueles crentes, que a generosidade deles atingiu, e muitos casos, as raias do que parecia impossível.
As igrejas carecem de ensino cem por cento fiel quanto à contribuição. Bem sei quão custoso é dá-lo. Todavia, o Senhor, que operou naqueles dias nas igrejas por meio de Paulo e outros, está pronto para fazer o mesmo hoje.
NO PRIMEIRO DIA DA SEMANA
I Cor. 16:2 - A vida sistematicamente bem organizada é fator de segurança para o crente. Tudo que fazemos deve ser pautado por princípios de ordem e método. Isso garante maiores probabilidades de êxito e constitui uma notável prova de bom testemunho. O fato é tão importante e necessário que até o nosso Deus agiu com método e ordem na criação e disposição de todas as coisas. Estes breves pensamentos enquadram-se na sentença inspirada de Paulo: "No primeiro dia da semana".
O Senhor é sábio e justo. O que Ele requer de nós baseia-se no que temos, nunca no que não temos. O "primeiro dia da semana" também pode ser o primeiro do mês nos tempos atuais. Esse é o momento que temos tudo que adquirimos mês ou semana anteriores. É então que, por termos mais, menos nos custa oferecer algo para o Senhor. Para contribuirmos com esta precisão necessitamos não apenas de meios, mas, também, de ordem na vida.
CADA UM DE VÓS
A recomendação destina-se a crentes individuais, ainda que pertençam á mesma família. "Cada um" é a regra que temos. O Senhor instrui Paulo para escrever assim, por Lhe ser mais agradável receber esta forma de serviço de cada um dos Seus remidos. E, como facilmente se entende, cada um de nós deseja sentir em si mesmo o profundo prazer de dar. E que a prática de dar é um prazer verdadeiro, quando o coração se envolve nisso. Tanto basta para que nenhum de nós se prive ou deixe privar do gozo e moral que este privilégio nos causa.
PONHA DE PARTE
O ensino continua a incidir sobre a importância do método na vida cristã. Pôr de parte, é destinar e separar aquilo, que reconhecemos pertencer ao Senhor; temos aqui e sentido da reciprocidade. Ele é bondoso. Salvou-nos segundo a Sua graça, e tem-nos feito participantes dos Seus benefícios incontáveis. E, por isso é justo que O convidemos a tomar para Si uma parte do muito que Ele nos dá. "Quem sou eu, e quem é o meu povo, para que pudéssemos fazer ofertas tão voluntariamente? Porque tudo vem de Ti, e do que é Teu - da Tua mão - te damos" - l Cr. 29:14.
Por muito que Lhe demos isso nunca passará de uma insignificância, em comparação, com a abundância que Ele nos dá. Não separar a parte do Senhor é correr o risco de gastarmos desordenadamente o que é dEle juntamente com e "nosso". Mas quando pomos de parte o que pertence ao Senhor, isso é dEle definitivamente. Os nossos direitos cessaram, pelo que não mais usaremos isso em proveito próprio.
O QUE PUDER AJUNTAR
A nossa contribuição é uma das formas de culto que prestamos a Deus. Ele, que a aceita, não pede de nós sacrifício. Porém, se e houver da nossa parte, terá de ser voluntário, porque o nosso coração assim e deseja. Ora a exortação diz: "O que puder". Pensemos na mulher que ungiu o Senhor com bálsamo de nardo puro, "de muito preço". Este ato de culto especial concitou contra ela a indignação de alguns. O Senhor depressa os moderou com a seguinte apreciação: "Deixai-a, para que a molestais? Ela fez-Me boa obra. Esta fez o que PODIA" - Marcos 14 - Ela fez o que podia. O que fazemos é, ou deve ser, também para o nosso Senhor. Terei eu feito nesta área sempre tudo que posso? E tu, meu irmão, também tens feito exatamente e que podes? Ou, pelo contrário, temos feito e dado menos do que pudemos? O ensino é sempre o mesmo: "Cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar".
CONFORME A SUA PROSPERIDADE
Esta prosperidade resulta do que se adquire por meio do trabalho, ou do negócio ou de outros rendimentos. Ou: conforme os rendimentos de cada um no mês ou semana anterior. A inobservância desta doutrina é um grande pecado, que vai ser julgado no tribunal de Cristo. Em muitas igrejas locais as coletas são de miséria. São sempre iguais. Nunca medram, apesar dos seus membros verem os seus ganhos aumentados muitas vezes. "O amor do dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores" - 1 Tim 6:10. Estas palavras devem ser lidas e entendidas com santo temor. Elas dão-nos conta de que o Senhor entra em Juízo com os tais, apesar de crentes, mesmo antes do tribunal de Cristo. Deste modo fica explicada a magreza das dádivas de muitos que podem dar infinitamente mais do que dão. Estes chegam a ser traspassados com muitas dores, começando assim a sofrer os efeitos do pecado da sua avareza. Toda a igreja que é feita de crentes que idolatram e dinheiro nunca será missionária. Nem ela prosperará, nem os seus membros. "Semeais muito, e recolheis pouco; comeis mas não vos fartais; bebeis, mas não vos saciais; Vestis-vos, mas ninguém se aquece; e o que recebe salário, recebe salário num saco furado".
"PARA QUE SE NÃO FAÇAM COLECTAS QUANDO EU CHEGAR"
Paulo, que estava ausente do Corinto, transmitiu aos crentes o ensino que recebeu do Senhor. Fez por escrito. Pouco depois, seguiria para lá. Ao escrever recomendou que as coletas fossem feitas antes da sua chegada, e não depois. O servo de Senhor procedeu desta maneira a fim de evitar que a sua presença exercesse alguma pressão psicológica sobre os crentes. Os corações deles deviam ser tocados e movidos somente pele Senhor e por uma boa consciência. Eles deviam fazer tudo livre, voluntária e alegremente, sem a mínima coação humana. Eu próprio não simpatizo com quaisquer apelos insistentes, seja qual for e fim em vista.
A GRAÇA DE DEUS
"Fazemo-vos conhecer, Irmãos, a graça de Deus às igrejas na Macedônia" - II Cor.8:1-9. "A graça de Deus dada às Igrejas". Logo que as necessidades dos santos em Jerusalém foram conhecidas na Macedônia, os crentes iniciaram uma recolha de fundos de tal envergadura que excedeu tudo quanto se poderia julgar humanamente possível. Foi a graça de Deus que fez isto. Fez, e faz ainda hoje. Esta graça traduz-se em pensamento e ação na nossa vida. Os santos macedônios experimentaram o poder desta graça ao serem tomados por uma grande vontade e um profundo desejo de darem o que tinham. Também eles podiam afirmar: "A Sua graça para conosco não foi vã"-I Cor. 15:1 0.
"Em muita prova de tribulação". Estes irmãos estavam sendo muito atribulados e sofriam "profunda pobreza". Em face deste quadro, que faria eu? E tu, meu irmão, que farias também? E que fariam eles sem a graça de Deus operando em seus corações? - Simplesmente nada! Sim mas a graça atuou e o milagre consumou-se, criando neles a bendita disposição de dar. E, porque do fraco saíram forças, houve abundância de gozo e riquezas de generosidade. Sem a menor dúvida, este gozo foi já uma parte da recompensa do Senhor para eles aqui na terra.
VOLUNTARIAMENTE
"Segundo o seu poder, e ainda acima do seu poder, deram voluntariamente”. Uma vez instruídos quanto à maneira de socorrerem os seus irmãos em dificuldades, eles agiram prontamente, sem a mínima imposição. Profundamente tocados pela graça do Senhor, pediram que lhes fosse concedido juntarem as dádivas do seu sacrifício de amor às dos outros crentes. Examinando bem o texto, conclui-se que eles procederam com tal solicitude junto de Paulo como sentindo medo de que este privilégio lhes fosse negado, por causa da sua "profunda pobreza". Assim se vê como a graça de Deus pode vencer todo o egoísmo e as nossas "inquietações pelo dia de amanhã". Fica assim também provado que onde a graça de Deus opera ninguém é demasiadamente pobre para contribuir. E de que o amor fraternal é uma realidade atuante, mesmo em tempos difíceis. Foi deste modo que os crentes macedônios tomaram parte nas aflições dos de Jerusalém e estes participaram no amor sacrificial dos primeiros.
POR AMOR E NÃO POR UMA REGRA
"Primeiramente a si mesmos se deram ao Senhor, e a nós pela vontade de Deus". O que foi feito pelos macedônios para o bem dos crentes de Jerusalém não obedeceu a qualquer regra relacionada como dízimo. Foi muito além disso. Esta revelação do apóstolo oferece-nos um quadro vivo de uma entrega real e completa destes queridos irmãos. Foi, inegavelmente, um verdadeiro sacrifício de amor.
O princípio que os orientou neste comportamento deve ser observado à luz de Rom. 12:1 -"Rogo-vos, pois, Irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional".

O DINHEIRO NÃO É TUDO.
Meu irmão, não só o dinheiro, também as nossas forças, a nossa inteligência, o nosso tempo e tudo o mais em nossa vida devem estar tão disponíveis para o Senhor de quem somos que Ele possa dispor destes talentos e dons como e quando queira. Não O podemos glorificar com menos do que isto, pode crer. Todos nós somos mordomos daquilo que Deus nos confiou. De um momento para o outro seremos chamados a prestar contas da nossa mordomia no Tribunal de Cristo. Que o Senhor nos dê a alegria de sermos achados fiéis, mesmo no uso e prática das coisas mínimas.

Em Cristo.
Pr. Claudemir

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